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16 de abril de 2020

Nascer poderia ser sentido de várias formas. Mas, no momento, Dedé só se interessava por uma: queria construir um lugar onde pudesse reinventar as suas emoções, subjetivar seus anseios, rasgar o véu das desilusões e bordar de ouro esse renascer.

Dedé era assim. Fragmentado em seu amor, junto ao espelho do universo, optava por reinventar todos os dias uma forma de recobrar um sentido para seu mapa estelar.

Compreendia que era parte dessa costura cósmica que cintilava em sua memória, onde outras vozes por vezes o atingiam. Assim, com sua voz asfixiada e ouvido congestionado, experienciava a solidão das estrelas diante da imensidão universal.

No arder de sua infância, seu olhar propagava algum tipo de chama, um intenso calor, que por vezes acabava atingindo alguns moradores do bairro onde morava. Esse calor, narcísico, mas pouco exagerado, despertava curiosidade no outro que, com inveja, revidava.

Alegre, arrojado, Dedé seguia pulando, cantando, sem se cansar de distribuir sorrisos por onde passava. Nutria-se de uma gama de felicidade incomparável em sua totalidade. Na casa onde morava, haviam outras pessoas, Joana, Berê, Cauê e mais alguém que ainda esperavam!

Joana gostava de brincar de ser uma estrela e vivia inventando coisas. Um dia Joana acordou sem vontade de inventar, não queria mais brincar e também não gostava mais da casa onde morava. No entanto, permanecia ali, todos os dias, olhando seu reflexo nas paredes e sua sombra enclausurada. Dedé não entendia como uma pessoa podia não gostar de estar em sua própria casa.  Joana lhe disse que não sabia se algum dia poderia desejar em outro lugar se encontrar.

Ao amanhecer, Dedé sentia a brisa passeando levemente junto às cigarras, sim às cigarras cantantes que, com seu canto, encantavam as ruas e os vagalumes, despertando, num salto, a criançada que corria rua afora entre pedregulhos, levantando poeira, pintando nuvens e colorindo o céu. No final dessa rua havia um riacho onde as crianças gostavam de banhar-se. De repente apareceu por lá uma pequena tartaruga que a todos encantou com seu casco mesclado em tons de terra e amarelo queimado como o sol! Mas essa é uma outra história.

No espelho de seus olhos, Dedé percebia espaços vazios que se condensavam com as nuvens no céu. Não conformado em ver apenas seu pequeno mundo, decidiu pilotar seu foguete e avançar ao espaço. Sim, ele havia construído um foguete com as sobras de um isqueiro que mantinha acesa a chama da cauda de uma estrela. E assim deu início à viagem ao centro do universo.

Desenhado o primeiro planeta, percebeu que algo estranho acontecia, que maltratava seus pés; pedras pontiagudas violentavam o seu caminhar. Mesmo assim, seus outros sentidos percebiam flores exuberantes, que exalavam um perfume afrodisíaco. Suas pétalas eram circundadas por cores indescritíveis, mas com espinhos como ofendículos de proteção. As árvores eram fortes e suas folhas libertavam, numa só dança, o pólem de alguns plátanos enfileirados na mata.

Então, Dedé, com sua lucidez criativa, aproveitando-se de um algodoeiro que na mata espreitava, tomou-lhe emprestado alguns flocos de algodão para formar nuvens ao seu redor e com o vislumbre de sua maciez, enganar a dor e suportar o caminho.

Perto dali havia uma rocha junto ao mar, que escondia algumas poucas iguarias sobrepostas à areia. A beleza deste lugar era algo jamais visto por seus olhos. Se sua curiosidade não persistisse, Dedé jamais saborearia de tais iguarias.

A coragem do menino se fez notar quase que por encanto. Audaciosamente a deixou respingar para cruzar o céu e na terra se acomodar. Joana, que caminhava ao redor de sua casa, foi apanhada de surpresa, quando uma pequena fagulha da coragem de Dedé invadiu seu olhar nebular.

Mas, o vazio ainda estava ali!

Com os pés ainda doloridos, Dedé sabia que a aventura não poderia parar. Mesmo machucado, voltou a sua espaçonave em busca de outro planeta ou outras criaturas que pudessem lhe dar algumas respostas. Queria saber como poderia preencher o vazio que tomava conta de uma parte do coração de Joana?

Desta vez, a viagem foi mais longa do que o esperado. Seu foguete estava abastecido de muito amor, mas a distância que o separava de um planeta a outro era imensurável.

Perdido em seus próprios pensamentos, eis que um portal se abre à sua frente, quase que como um passe de mágica. Atravessando o vale das ilusões, quase tem comprometido seu avanço, pois agora, se vê emaranhado a uma hera poderosa.

Dedé percebeu que se nada fizesse, ficaria ali, preso naquele lugar para sempre. Então começou a lutar, jogando toda sua ira na tentativa de romper seus laços. Mas estava perdendo suas forças, sentia-se sozinho e já não acreditava mais em suas próprias raízes. De repente, eis que surge Cauê, com seu chicote de vidro transparente um tanto quanto frágil, mas que não lhe impedia de investir contra a hera daninha. Ele também tinha em seu cinto de segurança uma espada de São Jorge.

Num ímpeto veloz a jogou a Dedé dizendo: — Vamos, lute comigo, juntos somos mais.

Partículas estranhas circundavam o ar, provocando uma onda gigante de sentimentos antagônicos, onde emoções jamais experienciadas antes começavam a despertar.

Dedé não entendia como Cauê surgiu de repente em sua espaçonave.

Enfim, a hera foi se acalmando e, por um espaço de tempo, a trégua aconteceu.

Cauê havia se escondido na nave, ficou um bom tempo alimentando-se com o leite extraído da seiva de algumas plantas estufadas. Não mais sentindo-se saciado e vendo seu amigo em perigo, decidiu descortinar-se de seu esconderijo.

Exaustos e perdidos em seus próprios devaneios, Cauê e Dedé se abraçaram, num reencontro carregado de lágrimas e unidos nesse amor, decidem então jamais desistir!

Eis que de repente, entrelaçados de ternura, sua nave tropeça em outro planeta.

Cauê então disse a Dedé:

– Olha só, um planeta todo vermelho da cor do coração.

Dedé responde:

– Sim, Caué, mas você percebeu que apesar da cor, há muitas ranhuras indiferentes ao seu tom?

Desceram então de sua nave e começaram a caminhada de identificação do planeta. A cada passo que davam se deparavam com espaços vazios, esses eram iguais aos vistos no olhar de Joana.

Cauê deu um salto:

– Dedé, olha só! Por estes espaços podemos ver nosso pequeno planeta Terra e também estou vendo a Berê… Veja!

– Sim, estou vendo a nossa querida Berê com suas tranças brancas e longas a cantar sozinha no mesmo riacho onde estava a tartaruga.

– Cauê, por que será que ela não sai dali? Faz tempo que estamos fora e ela continua no mesmo lugar.

Berê sabia que precisava voltar pra casa e se encontrar com Joana, mas uma voz suave a paralisava. Lá do alto, era possível visualizar essa voz porque ela era como uma brisa de luz escura que dela se apossava.

Foi então, que Caué teve uma ideia; e se lá de cima, do planeta vermelho, com seu chicote, pudesse chicotear uma pedra, esta provocaria uma faísca de cor que poderia atingir a tartaruga. Assim, a tartaruga se locomoveria e quem sabe conseguisse ultrapassar a luz escura e cutucar Berê para que voltasse seu olhar para um outro olhar.

Cauê pegou seu chicote de vidro e chacoalhou sobre uma pedra vermelha que ali estava. Logo, ascendeu uma pequena centelha que pegou uma carona no vento para um rabo de palha e desceu até o riacho onde a tartaruga se encontrava. Quando a tartaruga foi atingida pela faísca vermelha, que a fez caminhar, lentamente avança sobre Berê que, num susto, também se pôs a andar!

Então, lá de cima os dois gritaram:

– Hei, Berê! Você precisa sair daí, encontrar um novo espaço!

Berê ficou triste, tentou resistir, mas uma força maior a expulsava daquele lugar do qual não gostaria jamais de ter saído. Afinal, já estava acostumada e voltar a caminhar era difícil, teria que reaprender com os algodoeiros uma forma de suportar a dor. Berê não tinha a mesma destreza que Dedé, por isso a dor que sentia por vezes a vencia.

Pequenos passos se sucederam, e isso, mesmo que lentamente, deixou Cauê e Dedé mais otimistas. De volta à sua aeronave, avançaram na busca de um novo sítio para explorar.

Neste instante, uma estrela corta caminho, rasgando o céu com seu rastro de gelo, paralisando as emoções de Dedé e Cauê. Algo aconteceu: eles não conseguiam mais sentir o que antes sentiam. Precisavam fazer alguma coisa e rápido para que seus corações não petrificassem.

Continuaram o percurso, agora mais vigilantes, na busca de qualquer planeta que pudesse lhes aquecer e dar-lhes abrigo. Projetaram-se através de reações e inversões, chegando às montanhas mais altas de um minúsculo planeta que, com seu silêncio, pintava o céu com coloridos retalhos de um tecido interestelar. Aproveitando-se destes, os dois se aconchegaram mais e mais um ao outro e, aos poucos, aqueles pequenos retalhos começaram a derreter o gelo e suas almas voltaram a se iluminar.

Difícil mesmo era entender… As pessoas na casa de Dedé nunca haviam compartilhado tamanho retalho. Toda vez que alguém tentava aquecer-se junto à lareira, uma nuvem de cinzas invadia seus corações e um cisco em seus olhos caía. Cegos em seus próprios sentimentos, logo voltavam a lugar nenhum.

Tão logo o gelo derreteu, Cauê e Dedé se entreolharam e nada falaram, apenas sentiam as batidas de seus corações entorpecidos num encantamento circular. Unidos, agora, voltaram seu olhar para Terra e puderam avistar o vazio de Joana e a solidão de Berê, pois a mesma água solidificada um dia os vigiou.

Como isso poderia acontecer com eles? Eles que construíam naves e aventuravam-se pelos planetas! Como podiam permitir tamanha era glacial?

Permaneceram ali parados por alguns segundos, contemplando o infinito, embaraçados em seus próprios pensamentos.

Movidos por esse sentimento, e agora com o auxílio de alguns retalhos, uma agulha e uma nova cor de linha, começaram a costurar o céu! Enrolando e desenrolando, encontrando outros planetas e a eles se interconectando. Entre um ponto e outro, alinhavados e ainda frágeis, eis que a ponta de um iceberg ainda insiste em emergir.

Mas, esse espaço entre alguns pontos não os impedia de seguir cosendo o tempo, instalando o vento, destilando a contento e sentindo o concerto.

No circundar bastardo das emoções, incertezas persistiam, mas Cauê e Dedé continuavam a avançar mais e mais, adentrando a aurora boreal que com seu véu cobria de cores pequenos pontos estelares. Hipnotizados com seu brilho, voltaram o pensamento a sua pequena casinha, naquela rua perto do riacho, onde tudo havia começado e que tão distante agora se encontrava. Desejavam que Berê e Joana tivessem se juntado a eles para poder ver o que antes não podiam.

Um cometa que por ali passeava rasgou o véu boreal e uma fenda se abriu; e por alguns milênios de segundos um silêncio fusional se fez.

Um vento norte que cortava caminho, soprou na direção da nave, congelando parte do motor e também os movimentos de Dedé e Cauê, que lá de cima observavam Joana em seu quintal colhendo frutas para o jantar. Ao seu lado, uma montanha de cupins se instalava sem que ela os percebesse. Mais adiante, no pequeno vilarejo, pessoas caminhavam e vestiam-se umas iguais as outras, andando sempre na mesma direção.

Por um momento, lembraram das formigas, que distraídas, carregando seus suprimentos não davam atenção aos besouros rinocerontes.

Emocionados em suas próprias incertezas, perceberam que também distraíam-se facilmente quando contagiados por uma mesma emoção. Ardilosamente, partículas fragmentadas formavam-se ao seu redor num movimento enigmático e ao mesmo tempo sofisticado.

A distância os uniu, a saudade os salvou, e o jantar que Joana preparava os trouxeram de volta a algum lugar. Suas mentes aguçadas e completamente hiperativas, prestavam atenção ao que antes não percebiam. Até que um dos besouros rinocerontes, daqueles que estavam perto de Joana, que escalava uma linda montanha, tropeçou e caiu sob o mar do céu. Então uma centelha de escuridão inundou a galáxia que entorpecida se encontrava!

Individualizados em sua própria nostalgia, Cauê e Dedé decidiram voltar para casa, abraçar Joana e caminhar com Berê para juntos novas aventuras desvendar pois, compreenderam, que o vazio que sentiam era a distância do outro alguém que todos esperavam.

Como num passe de mágica, flocos de sagu que cintilavam no espaço, provocaram alucinações cósmicas numa junção indefinida. Depois de várias investidas, finalmente outros caminhos se formaram, unificando os planetas. Ondas magnéticas, ultrapassando a barreira celestial, elevaram o nível do mar assustando até os peixes que ali viviam. Centelhas de alguma coisa perdida no tempo ressuscitou a memória dos pescadores que, distraídos, apenas pescavam.

Recuperados de sua utopia, vislumbraram ao longe uma pequenina luz que lentamente se aproximava do planeta. Agarraram-se à uma pequena raiz que do solo emergia e pousaram sua nave.

Sentiram novamente em seu peito um novo átomo pulsar, a esperança facultada na essência do olhar. E nesse olhar, o espelho do céu reflete a completude infinita e inexplorada de um novo continente aportar.

De volta a sua essência, ingenuamente, perceberam o quanto suas distrações afetavam também aos outros. Transcenderam, então, diante de uma nova atitude, a princípio inigualável. Trabalhando em conjunto, ansiados agora pelo conhecimento, uma nova onda de sentimentos invadiu seus corações. Precisavam compartilhar suas descobertas. Conectar-se novamente a infância, onde muito se perdeu!

Cauê então perguntou:

– Dedé, porque as formigas trabalham sem olhar para os besouros?

Dedé: – Porque são formigas, só aprenderam a trabalhar. Jamais foram crianças!

E assim, no toque suave de um novo linguajar, os dois seguiram de volta para casa levando consigo uma folha de papel em branco. Não sabiam muito bem o que fariam com ela, mas sabiam que tinham uma nova missão, tentar compreender o incompreensível.

Joana e Berê ficaram felizes com a volta dos dois, pois estavam tão sós… Mas o outro alguém, todos ainda o esperavam.  Talvez agora Joana e Berê se reencontrem, afinal, poderiam reescrever um novo final!

Sincronicamente, os dois ficaram pensativos.

O que poderiam fazer agora, que estão todos juntos?

FIM e/ou RECOMEÇO!

Gisela Purper Barreto – Psicóloga clínica Pós Graduada em Arteterapia – Contatos: (51) 985843945 e  (51) 997855611 – Matriculada em curso de Extensão em Neurociência do Comportamento Pela Universidade Internacional de Ciências do Espírito – UNIESPÍRITO